Quarta-feira, 03/03/2010, 21h20

ENTREVISTA

Marton Maués: "a risada da plateia é um termômetro imediato"

Ator conversou conosco sobre seu mais novo trabalho: 'O Mão de Vaca'

por Vivian Carvalho

edição: Amanda Aguiar

Divulgação O encontro aconteceu há longos vinte anos. Foi em 1990 que Marton Maués se deparou, pela primeira vez, com um Molière nos palcos. Em 2006, após se debruçar em várias peças do dramaturgo francês, Marton fez sua primeira adaptação: “O Hipocondríaco”, baseado também na obra “O Doente Imaginário”. Agora, ele e a sua trupe de Palhaços Trovadores apresentam “O Mão de Vaca”, baseado na obra “O avarento”. 

Em cena, Harpagon, um velho mesquinho, trata mal seus empregados e animais e só pensa em duas coisas na vida: economizar dinheiro e casar os filhos Elisa e Cleanto com pretendentes muito ricos. O teatro como crítica social? Quem sabe. “Sem grandes aspirações críticas ou políticas, nós queremos fazer rir”, ele diz. Confira a seguir um bate-papo com o ator e diretor:

Como foi o seu primeiro contato com a obra “O Avarento” de Molière?

Conheci de fato Molière através da montagem de "O Doente Imaginário", pelo grupo paulista Ornitorrinco, em 1990. E, desde então, venho lendo suas peças. Acalentei durante mais de dez anos o desejo de montar "O doente imaginário", o que fiz com os Palhaços Trovadores, em 2006, com o nome de "O Hipocondríaco". Depois que "O Hipocondríaco" estreou e iniciou uma boa carreira, pensei logo na possibilidade de montar mais um Molière, sugerindo logo "O Avarento", que havia relido. Fiz um projeto, associando a montagem à minha tese de doutorado pela Universidade Federal da Bahia e aqui está o resultado, "O Mão de Vaca". 

Esta não  é a primeira vez que vocês fazem uma adaptação da obra de Molière. Podemos dizer que ele é seu dramaturgo preferido?

Molière é realmente um dos meus preferidos, por que ele é muito bom! Ele tem um modo de pensar a situação cômica que me agrada muito e que permite desdobramentos bem adequados à linguagem clownesca.

Molière usou suas obras, sobretudo para criticar os costumes da época. Os Palhaços Trovadores, de algum modo, também têm esse objetivo em seus espetáculos?

Nós queremos fazer rir, sem grandes aspirações críticas ou políticas. O riso em si já é crítico; Mas não temos a preocupação que tinha Molière, de fazer uma crítica de costumes.

O  espetáculo surgiu da tua pesquisa de doutorado, que analisava o processo coletivo do espetáculo. Esse processo coletivo está presente no espetáculo “Mão de Vaca”?

Na verdade, a pesquisa de doutorado é que se ligou ao projeto do espetáculo. Quando tive que escrever o projeto de doutorado, o projeto de montagem de "O avarento" já estava pronto. Como no doutorado eu queria descrever a poética do grupo, mas queria fazer isso a partir de uma montagem, liguei os dois projetos. Minha proposta era realizar uma montagem na qual o público fosse de algum modo partícipe, porque minha tese é de que o público que nos acompanha há 11 anos já percebe e identifica a nossa poética, nosso modo de fazer teatro e palhaçaria. O processo colaborativo esteve o tempo todo presente na montagem. Claro que o público não vai perceber isso agora, ao ver o espetáculo, mas muitas cenas e detalhes nasceram de propostas dadas pelas pessoas que assistiam nossos ensaios.

Como acontecia essa colaboração do público para a construção de “O Mão de Vaca”?

Realizamos mais de três meses de ensaios abertos em que o público era convidado a opinar e até parar a cena se quisesse propor coisas. Também ao final dos ensaios sempre batíamos um papo. Nem sempre o público era grande. Mas tínhamos uma plateia cativa, principalmente de moradores do entorno da Praça da República, local dos ensaios. Também fizemos um ensaio no estacionamento de um pavilhão do Campus Básico da UFPA, com público grande e bem participativo.

Vocês estrearam o espetáculo dia 25 de fevereiro. Como foi a estreia e a receptividade do publico?

Foi um pouco nervosa, como toda estreia. Mas, estava uma noite linda e o anfiteatro ficou lotado. O espetáculo foi bom e a reação do público excelente. Espetáculo cômico tem um termômetro imediato: a risada da plateia. No nosso caso, o termômetro estava estourando. Nos dias posteriores melhorou ainda mais.

O nome do espetáculo surgiu em uma votação na comunidade de vocês no Orkut. Por que deixar o público decidir? Quais eram os outros nomes que participavam da votação?

Por que não, se estávamos convidando o público para participar do processo conosco? Demos três sugestões: ‘O Unha-de-fome’, ‘O Pão Duro’ e ‘O Mão de Vaca’. Eu gosto dos três, sinceramente. Mas preferi que o nome fosse escolhido pelo público, me eximindo da crueldade da dúvida. 

Você  já era ator de teatro na década de 80. Quando foi que decidiu estudar a linguagem clown e seguir em frente com esse trabalho?

É, comecei bem no início dos anos 80, mesmo. O palhaço apareceu na minha vida muito tempo depois, já na segunda metade dos anos 90, quando dirigia uma companhia de teatro de rua e pensei em fazer um espetáculo com palhaços. Tudo conspirou a meu favor, fui a um festival em que se falava muito no clown e pude ver trabalhos, assistir palestras e até fazer uma oficina. Encantei-me com a linguagem, estudei, pesquisei, ministrei uma primeira oficina e dela surgiu, em seguida, o grupo Palhaços Trovadores.

Agora que 'O Mão de Vaca' já ganhou os palcos, quais os próximos planos dos Palhaços Trovadores?

Temos um projeto que vai juntar a linguagem do palhaço com a dos bonecos, chamado "O Menor Espetáculo da Terra", que será dirigido pelo Aníbal Pacha, um grande mestre bonequeiro e integrante da In Bust Companhia Teatro Com Bonecos. Sempre investimos em linguagens que os atores desejam experimentar e essa investida parece que vai dar bons frutos. Também estamos batalhando a  reforma de uma casa, que nos foi cedida pela Santa Casa de Misericórdia, que vai abrigar nossas atividades e se chamará Casa dos Palhaços. Estamos correndo atrás de doações, realizando eventos e tudo o mais. Neste domingo (14) faremos, no Teatro Maria Sylvia Nunes, dois espetáculos com essa finalidade: "Amor Palhaço", às 10h, e "O Mão de Vaca" às 17h. E, por fim, confesso que por mais louco que possa parecer, ando pensando em outro Molière. 

SERVIÇO

“O Mão de Vaca”, novo espetáculo dos Palhaços Trovadores, retorna aos palcos nos dias 04, 05 e 06 de março,

  • Delicious
  • Digg
  • Twitter
  • PrintFriendly

2 comentários    

gravatar do

Patrícia Araújo

07/03/2010 10:26:58

Adorei!


04/03/2010 11:30:59

Já conheço o trabalho do Marton e dos palhaços há bastante tempo. Certeza de boas risadas.


Comente!